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27 de fevereiro de 2012

Despedida de um grande amor, senão o maior.

luta a lembrança em meio ao cheiro e cor de luto
insignificante, como a confiança do respirar convalescente
singela e, como sempre, profunda
brada, dispara, cala... e consumida se desencontra
e enquanto o tempo corta a pele, esvai o sangue dessa palavra
lentamente, cegamente, tardiamente
acorda, recorda, limpa... mesmo que mais sangre o escrever.

palavras pisam o travesseiro
onde me afoga esse segundo
ressuscitado no torpor das roupas arrancadas
quase afasta as tuas digitais dos meus poros
umedecidos pelos beijos promíscuos dessas lagrimas
esculpidas na pele... penetram o que as repelem, e curam.

traçados, premeditadamente rabisquei teu outro nome
encravado em negro no mesmo lugar, na pele.

ausente, violenta a mentira que degusta
mordida pelo sono, inverte o sonho que outrora me condenava
ordena o irreversível, torna-se humano, demasiado.

tece um segredo para não excitar a verdade desnuda
e, só então, encostada no silêncio, deslealmente o despe.

parte aquela palavra inteira
e eis que, partida, desabotoa a intimidade dessa lembrança
recheando seus lábios, que ainda assim os calam:
delitos deitados nas margens dos momentos que nos abraçam
onde velados enfim se encontram a eternidade e...
o fim.

Lisbela, parte final.

13 de fevereiro de 2012

Quem tem medo de Clarice Lispector?

Sobre minha escrivaninha, o maço de cigarros me adverte que fumar faz mal à saúde. Involuntariamente sorrio. Do lado do cigarro, há algo ainda mais prejudicial sem que haja nele qualquer advertência: um livro de Clarice Lispector. Que diabos de parâmetros são esses de acordo com os quais a nicotina é mais venonosa do que a visão lispectoriana do mundo? Ou a saúde pública não goza de capacidade de discernimento, ou não leu Clarice... Ela chegou às minhas mãos há muito tempo e sempre me assustou: sua densidade, seus mergulhos existenciais são potencialmente destrutivos e perturbadores. Mas hoje ela se reaproximou sorreteira, ressuscitada por um amigo-em-quem-me-vejo-como-um-espelho. Ah, amigo, foi maldade! Falar de Clarice reacendeu em mim um desejo meio-totalmente masoquista de me deixar arrastar pelo seu turbilhão discursivo. Estou apavorada: essa mulher era caso perdido ou perdida estou eu?... abro à revelia e em pânico uma página de seu livro."Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o risco sagrado do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade." Como posso ler isso e ir tomar sorvete como toda a gente, fingindo que não sei que isso foi escrito, com absoluta certeza, para mim. Eu tenho medo, sim, de Clarice Lispector: ela é intimidadora, como certos amigos que tenho... amigos que me fazem pegar do canto direito da terceira prateleira da minha estante o livro que é causador da minha agonia. Amigos que me fazem lembrar que viver é muito perigoso - embora o autor da frase seja G. Rosa. O que irá me sucumbir afinal: as milhares de substâncias químicas do meu cigarro ou a perigosa perspectiva da escritora ucraniana?... Acendo um cigarro, lembro de Augusto dos Anjos, outra ameaça, por causa da rima: "O beijo, amigo, é a véspera do escarro". Fumo calmamente e sem culpa, enquanto fecho o livro e o ponho fora de alcance. O estrago está feito. As feridas, expostas. Tenho contade de dizer ao meu amigo que isso não se faz... é caso de denúncia criminal. Mas já que ele o fez, o mínimo que pode me oferecer é colo... e cigarros.





[Por minha melhor e eterna professora: Tereza Cavalcanti]

11 de fevereiro de 2012

Cicatrizes

A você.


Era fascinada por cicatrizes. Desde pequena. Na pele dos outros, provocavam curiosidade – o que foi isso? – e Ela passava a mão, sem repulsa alguma, apenas fascínio. Na própria pele, as feridas eram pacientemente olhadas e, tornadas cicatrizes, admiradas. Não, não era masoquista. Jamais pensou em ferir a si mesma para que lhe nascessem aquelas marcas. Mas as quedas naturais e inevitáveis da infância lhe deixaram algumas, que ela nunca tentou esconder. Crescida, descobriu que o que lhe atraía nelas não era a forma ou a estética – era a simbologia. Cicatrizes representavam cura, superação - indelevelmente impressa na pele - da ferida e da dor. Cicatrizes eram um troféu, algo que só os que sofreram e transcenderam o sofrimento podiam ostentar, evidências de vida arriscada e plena. Crescida ainda mais, descobriu as cicatrizes invisíveis – as da alma, do coração. Sensível, Ela encontrou uma maneira de percebê-las nos outros, pelo olhar, e contemplava admirada as almas em que as antigas feridas – outrora tão abertas e insuportavelmente dolorosas – eram apenas cicatrizes... Sentia por essas almas uma forte comoção, mais que isso, uma devoção, como se elas lhe fossem superiores. Achava extraordinário tudo isso.
Até que seu coração foi ferido. Sangrou como os jovens corações feridos sangram: descompassada e demasiadamente. A sensação era desagradável e parecia eterna. Então lembrou-se das cicatrizes. Lembrou-se de que elas só existiam com dor prévia, não se conquistava uma impunemente. Rastreou o seu corpo em busca daquelas marcas, evidências da sua capacidade de superar, de recomeçar. Então sorriu, certa de que seu coração pararia de sangrar, cicatrizaria: era apenas uma questão de tempo, que Ela, jovem, tinha abundantemente. Passado esse tempo, Ela enfim entraria naquela categoria superior e, devota de si mesma, exibiria aquele troféu invisível àqueles que não enxergam a alma. Apenas a certeza disso já era suficiente para estancar o sangue que há pouco ainda jorrava. Paciente e extasiada, esperava por ela...




[Por minha melhor e eterna professora: Tereza Cavalcanti]

2 de fevereiro de 2012

Memória de minhas putas tristes

“Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era prêmio merecidos de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligencia; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cólera reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado de alma e sim um signo do zodíaco". (pg. 74.)

2 de janeiro de 2012

Mundo dos homens

Aurélio: Realidade é aquilo que existe efetivamente, que é real.

Mal pude perceber o longo processo de fissão. Imersa na realidade que tritura lentamente o que havia de mais intenso e sensível no meu ser, vi apenas o tudo espalhado por aí. Pouco depois pude, enfim, unir os pedaços desagregados e apreciar a dor e o prazer em sua essência; apenas nós: unicidade, excepcionalidade – como nos velhos tempos.

Não, não quero falar do metrô, das ruas, de obrigações, nem de convenções. Também não quero palavras por mais doce que seus lábios sejam. Chega de objetivações! Quero falar daquilo que é suscitado pelo seu sorriso e pelo seu abraço, o que me mantém viva, inteira, plena de tudo. Isso existe, é mais real que a realidade que lemos e convivemos.

Estaremos bem então. Noutro patamar. Transcenderemos àquilo que um dia chamaram de mundo dos homens.

1 de dezembro de 2011

Auto-conhecimento

Graças a alguém muito poderoso e/ou a mim mesma tenho o defeito de cometer erros em momentos cruciais e agravá-los velozmente, mas um desses possíveis alguéns também me reservou virtudes que me possibilitam assumir esses erros e perdoar erros alheios. Longe de ser santa ou a mais correta diante de situações extremas, mas muito perto da lucidez que sempre busquei: o auto-conhecimento. Aprender com as próprias limitações e tentar reparar problemas crônicos, lembrando que essas reparações suscitam hipóteses nas quais admitem-se resultados inesperados, mas que ainda assim não tornam o experimento falho. Vai, Clarice Lispector, ainda que vivendo nesse mundo banal das redes sociais, diga para minh'alma que "até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro".
Sou eu o maior experimentador e o experimento, todos são livres para testar e contestar, mas não cabe a ninguém concluí-lo por mim, seja favoravelmente ou não. Não sou a fórmula pronta que por vezes tentei ser. Sou o processo, sou as reticências... Mas acredite, também sou, acima de tudo, um coração que bate e anseia...

20 de janeiro de 2009

A gota de orvalho

Tudo tão diferente. Aos poucos a solidão vai me dominando e me lançando para os tempos passados em que eu varava a noite lendo Augusto dos Anjos e Clarice Lispector. Era a solidão alcançando o seu ápice. Será que pra mim a ordem natural das coisas seja essa? Saí do amor, saí da alegria, saí da esperança para reencontrar o meu antigo vazio? (...)

Sinto saudade da pessoa, e é ela que ainda não conheço a fundo, mas ela é a esperança de um preenchimento maior dentro de mim. É tudo oposto, é tudo na contramão, mas é o que desejo. O desejo amargo, o desejo que instintivamente sei que me lançará para as dores antigas. É uma imagem simples e facilmente vista no interior de um quadro, mas para uma alma sensível vai bem mais além. É sinuosa e turva; medrosa pra decifrar o tesouro presente nas mãos, mas corajosa pra tentar decifrar o desconhecido, os aspectos da vida, a gota de orvalho.

8 de maio de 2008

Segredo

Ele segurava firme a carta na mão na tentativa de aliviar a tensão que não podia transmitir a ninguém. Muito menos a ela que estava prestes a chegar.
Não se ouvia soluços, ele não podia vacilar a essa altura do campeonato, afinal já fazia quase dois anos que Diguito havia partido.
Acariciou a superfície do envelope que naquele dia estava mais pesado que o convencional, e não ousou abri-lo antes de olhar para os lados conferindo se estava realmente sozinho. Aconchegou-se na cabeceira da cama, abriu a carta já meio surrada e pôs-se a ler.
Engolia as frases. Lia-se "eternamente" e já pulava para a outra linha; lia-se "prometo" e pulava. E assim foi até chegar ao fim do escrito. Acontece que aquelas palavras de certa forma o incomodava e até mesmo já sabia a ordem que elas estavam dispostas no papel. O que ele queria mesmo era poder apreciar a dor por mais tempo, o tempo que restaria até ouvir o salto alto da mulher subindo as escadas.
No mês passado, enquanto lia mais uma vez os escritos, sugava as palavras de esperança que se repetiam linha a linha para ver se elas finalmente entrariam na sua cabeça. Inutil. Um mês depois ele percebera que ainda não era capaz, e também já não fazia mais sentido tentar. Os anos já haviam se passado mesmo.
Ele não gostava de poesias assim como Diguito, mas jurava que alguma poesia era formada quando lia as cartas dele. Até zoava resolvendo declamar em voz grossa e alta os trechos mais melosos do papel. Na época riam juntos. Diguito sempre o chamava de exagerado quando ele fazia esses gracejos.


continua...

2 de maio de 2008

Passeio Noturno - Parte 2




Rubem Fonseca

Eu ia para casa quando um carro encostou no meu, buzinando insistentemente. Uma mulher dirigia, abaixei os vidros do carro para entender o que ela dizia. Uma lufada de ar quente entrou com o som da voz dela: Não está mais conhecendo os outros? Eu nunca tinha visto aquela mulher. Sorri polidamente. Outros carros buzinaram atrás dos nossos. A Avenida Atlântica, às sete horas da noite, é muito movimentada. A mulher, movendo-se no banco do seu carro, colocou o braço direito para fora e disse, olha um presentinho para você. Estiquei meu braço e ela colocou um papel na minha mão. Depois arrancou com o carro, dando uma gargalhada. Guardei o papel no bolso. Chegando em casa, fui ver o que estava escrito. Ângela, 287-3594. À noite, saí como sempre faço.

No dia seguinte telefonei. Uma mulher atendeu. Perguntei se Ângela estava. Não estava. Havia ido à aula. Pela voz, via-se que devia ser a empregada. Perguntei se Ângela era estudante. Ela é artista, respondeu a mulher. Liguei mais tarde. Ângela atendeu. Sou aquele cara do Jaguar preto, eu disse. Você sabe que eu não consegui identificar o seu carro? Apanho você às nove horas para jantarmos, eu disse. Espera aí, calma. O que foi que você pensou de mim? Nada. Eu laço você na rua e você não pensou nada? Não. Qual é o seu endereço? Ela morava na Lagoa, na curva do Cantagalo. Um bom lugar. Estava na porta me esperando. Perguntei onde queria jantar. Ângela respondeu que em qualquer restaurante, desde que fosse fino. Ela estava muito diferente. Usava uma maquiagem pesada, que tornava o seu rosto mais experiente, menos humano. Quando telefonei da primeira vez disseram que você tinha ido à aula. Aula de quê?, eu disse. Impostação de voz. Tenho uma filha que também estuda impostação de voz. Você é atriz, não é? Sou. De cinema. Eu gosto muito de cinema. Quais foram os filmes que você fez? Só fiz um, que está agora em fase de montagem. O nome é meio bobo, As virgens desvairadas, não é um filme muito bom, mas estou começando, posso esperar, tenho só vinte anos. Na semi-escuridão do carro ela parecia ter vinte e cinco. Parei o carro na Bartolomeu Mitre e fomos andando a pé na direção do restaurante Mário, na Rua Ataulfo de Paiva. Fica muito cheio em frente ao restaurante, eu disse. O porteiro guarda o carro, você não sabia?, ela disse. Sei até demais. Uma vez ele amassou o meu. Quando entramos, Ângela lançou um olhar desdenhoso sobre as pessoas que estavam no restaurante. Eu nunca havia ido àquele lugar. Procurei ver algum conhecido. Era cedo e havia poucas pessoas. Numa mesa um homem de meia-idade com um rapaz e uma moça. Apenas três outras mesas estavam ocupadas, com casais entretidos em suas conversas. Ninguém me conhecia. Ângela pediu um Martini. Você não bebe?, Ângela perguntou. Às vezes. Agora diga, falando sério, você não pensou nada mesmo, quando eu te passei o bilhete? Não. Mas se você quer, eu penso agora, eu disse. Pensa, Ângela disse. Existem duas hipóteses. A primeira é que você me viu no carro e se interessou pelo meu perfil. Você é uma mulher agressiva, impulsiva e decidiu me conhecer. Uma coisa instintiva. Apanhou um pedaço de papel arrancado de um caderno e escrevou rapidamente o nome e o telefone. Aliás quase não deu para eu decifrar o nome que você escreveu. E a segunda hipótese? Que você é uma puta e sai com uma bolsa cheia de pedaços de papel escritos com o seu nome e o telefone. Cada vez que você encontra um sujeito num carro grande, com cara de rico e idiota, você dá o número para ele. Para cada vinte papelinhos distribuídos, uns dez telefonam para você. E qual a hipótese que você escolhe?, Ângela disse. A segunda. Que você é uma puta, eu disse. Ângela ficou bebendo o martini como se não tivesse ouvido o que eu havia dito. Bebi minha água mineral. Ela olhou para mim, querendo demonstrar sua superioridade, levantando a sobrancelha - era má atriz, via-se que estava perturbada - e disse: você mesmo reconheceu que era um bilhete escrito às pressas dentro do carro, quase ilegível. Uma puta inteligente prepararia todos os bilhetinhos em casa, dessa maneira, antes de sair, para enganar os seus fregueses, eu disse. E se eu jurasse a você que a primeira hipótese é a verdadeira? Você acreditaria? Não. Ou melhor, não me interessa, eu disse. Como que não interessa? Ela estava intrigada e não sabia o que fazer. Queria que eu dissesse algo que a ajudasse a tomar uma decisão. Simplesmente não interessa. Vamos jantar, eu disse. Com um gesto chamei o maître. Escolhemos a comida. Ângela tomou mais dois martinis. Nunca fui tão humilhada em minha vida. A voz de Ângela soava ligeiramente pastosa. Eu se fosse você não bebia mais, para poder ficar em condições de fugir de mim, na hora em que for preciso, eu disse. Eu não quero fugir de você, disse Ângela esvaziando de um gole o que restava na taça. Quero outro. Aquela situação, eu e ela dentro do restaurante, me aborrecia. Depois ia ser bom. Mas conversar com Ângela não significava mais nada para mim, naquele momento interlocutório.

O que é que você faz? Controlo a distribuição de tóxicos na zona sul, eu disse. Isso é verdade? Você não viu o meu carro? Você pode ser um industrial. Escolhe a sua hipótese. Eu escolhi a minha, eu disse. Industrial. Errou. Traficante. E não estou gostando desse facho de luz sobre a minha cabeça. Me lembra as vezes em que fui preso. Não acredito numa só palavra do que você diz.

Foi a minha vez de fazer uma pausa. Você tem razão. É tudo mentira. Olha bem para o meu rosto. Vê se você consegue descobrir alguma coisa, eu disse. Ângela tocou de leve no meu queixo, puxando meu rosto para o raio de luz que descia do teto e me olhou intensamente. Não vejo nada. Teu rosto parece o retrato de alguém fazendo uma pose, um retrato antigo, de um desconhecido, disse Ângela. Ela também parecia o retrato antigo de um desconhecido. Olhei o relógio. Vamos embora?, eu disse. Entramos no carro. Às vezes a gente pensa que uma coisa vai dar certo e dá errado, disse Ângela. O azar de um é a sorte do outro, eu disse. A lua punha na lagoa uma esteira prateada que acompanhava o carro. Quando eu era menino e viajava de noite a lua sempre me acompanhava, varando as nuvens, por mais que o carro corresse. Vou deixar você um pouco antes da sua casa, eu disse. Por quê? Sou casado. O irmão da minha mulher mora no teu edifício. Não é aquele que fica na curva? Não gostaria que ele me visse. Ele conhece o meu carro. Não há outro igual no Rio. A gente não vai se ver mais?, Ângela perguntou. Acho difícil. Todos os homens se apaixonam por mim. Acredito. E você não é lá essas grandes coisas. O teu carro é melhor do que você, disse Ângela. Um completa o outro, eu disse. Ela saltou. Foi andando pela calçada, lentamente, fácil demais, e ainda por cima mulher, mas eu tinha que ir logo para casa, já estava ficando tarde. Apaguei as luzes e acelerei o carro. Tinha que bater e passar por cima. Não podia correr o risco de deixá-la viva. Ela sabia muita coisa a meu respeito, era a única pessoa que havia visto o meu rosto, entre todas as outras. E conhecia também o meu carro. Mas qual era o problema? Ninguém havia escapado. Bati em Ângela com o lado esquerdo do pára-lama, jogando o seu corpo um pouco adiante, e passei, primeiro com a roda da frente - e senti o som surdo da frágil estrutura do corpo se esmigalhando - e logo atropelei com a roda traseira, um golpe de misericórdia, pois ela já estava liqüidada, apenas talvez ainda sentisse um distante resto de dor e perplexidade. Quando cheguei em casa minha mulher estava vendo televisão, um filme colorido, dublado. Hoje você demorou mais. Estava muito nervoso?, ela disse. Estava. Mas já passou. Agora vou dormir. Amanhã vou ter um dia terrível na companhia.

30 de abril de 2008

Passeio Noturno – Parte I

Rubem Fonseca

Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa de cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando empostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala?, perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar. Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre a mesa, não vida as letras e números, eu esperava apenas. Você não pára de trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já posso mandar servir o jantar? A copeira servia à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e minha mulher estávamos gordos. É aquele vinho que você gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu filho me pediu dinheiro quando estávamos no cafezinho, minha filha me pediu dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada pediu, nós tínhamos conta bancária conjunta. Vamos dar uma volta de carro?, convidei. Eu sabia que ela não ia, era hora da novela. Não sei que graça você acha em passear de carro todas as noites, também aquele carro custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é que cada vez me apego menos aos bens matérias, minha mulher respondeu. Os carros dos meninos bloqueavam a porta da garagem, impedindo que tirasse o meu. Tirei os carros dos dois, botei na rua, tirei o meu, botei na rua, coloquei os dois carros novamente na garagem, fechei a porta, essas manobras todas me deixaram levemente irritado, mas ao ver os pára-choques salientes do meu carro, o reforço especial duplo de aço cromado, senti o coração bater apressado de euforia. Enfiei a chave na ignição, era um motor poderoso que gerava sua força em silêncio, escondido no capô aerodinâmico. Saí, como sempre sem saber para onde ir, tinha que ser uma rua deserta, nesta cidade que tem mais gente do que moscas. Na avenida Brasil, ali não podia ser, muito movimento. Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o lugar ideal. Homem ou mulher? Realmente não fazia grande diferença, mas não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil. Ela caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário, coisas de padaria ou de quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa, havia árvores na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante problema a exigir uma grande dose de perícia. Apaguei as luzes do carro e acelerei. Ela só percebeu que eu ia para cima dela quando ouviu o som da borracha dos pneus batendo no meio-fio. Peguei a mulher acima dos joelhos, bem no meio das duas pernas, um pouco mais sobre a esquerda um golpe perfeito, ouvi o barulho do impacto partindo os dois ossões, dei uma guinada rápida para a esquerda, passei como um foguete rente a uma das árvores e deslizei com os pneus cantando, de volta para o asfalto. Motor bom, o meu, ia de zero a cem quilômetros em nove segundos. Ainda deu para ver que o corpo todo desengoçado da mulher havia ido parar, colorido de sangue, em cima de um muro, desses baixinhos de casa de subúrbio. Examinei o carro na garagem. Corri orgulhosamente a mão de leve pelos pára-lamas, os pára-choques sem marcas. Poucas pessoas, no mundo inteiro, igualavam a minha habilidade no uso daquelas máquinas. A família estava vendo televisão. Deu a sua voltinha, agora está mais calmo?, perguntou minha mulher, deitada no sofá, olhando fixamente o vídeo. Vou dormir, boa noite para todos, respondi, amanhã vou ter um dia terrível na companhia.

25 de abril de 2008

Hoje vai ser diferente!

O post de hoje vai ser diferente mesmo sendo igual, em essência, da maioria dos outros posts desse blog.
Explicarei...

Será diferente porque hoje é sexta-feira! Os lamentos das sextas-feiras são pra lá de peculiares.
É impressionante como todas as sextas-feiras são vazias. Posso sair, beber e fazer de tudo que na teoria deveria servir pra diversão, mas minha sexta-feira vai ser sempre assim: morta. Por que não ousar e dizer que prefiro muito mais os domingos? Pensar nos domingos em uma sexta-feira é quase uma terapia.
Sei que poucos devem compartilhar comigo esse ódio pela sexta, mas pelas experiências e solidariedade com o domingo mantenho esse sentimento vivinho em mim. Acontece que todos os sentimentos ruins se juntam e festejam no último dia útil da semana. É uma festa de arromba! A nostalgia já chega jogando conversa fora (e haja conversa), a saudade marca presença (de mãos dadas com a nostalgia), até o ócio aparece! Ele pode ficar na festa somente uma horinha que vai dar a sensação de ter ficado 10! E é claro que tem a dona da festa, com passos exuberantes ela vem, toda glamourosa e cheia de ensejo... A solidão! Essa é danadinha! Ela não perde uma sexta-feira! Abre a festa, domina os outros convidados com seus modos e só dá uma acalmada no outro dia de manhã quando todos já estão dormindo. Que inveja!
Quanto aos outros, eles ao longo da semana vão acordando, preguiçosos, mas vão acordando... Afinal tem que arrumar os preparativos para a festa de sexta né!

"Ela não sabe quanta tristeza cabe numa solidão, eu sei que ela não pensa. Quanto a indiferença dói num coração, se ela soubesse o que acontece quando estou tão triste assim. Mas ela me condena, ela não tem pena, não tem dó de mim..."

28 de maio de 2007

Emoções clandestinas...

Finalmente ela pôde desfrutar da natureza que há muito não desfrutava. Cansou-se da natureza humana deteriorada, e saiu por aí... foi ver o mar.

Era só ela... [chuá! chuá!] Ela era só.

Falsas esperanças, anseios e mágoas.
Não muitas vezes sorria pra vida.

-Ei, menina... sai dessa água!

Apenas mergulhos em emoções clandestinas...

27 de maio de 2007

Eu perco e tu perdes...

[Perder: ser privado de coisa que se possuía; deixar de ter, de gozar; não aproveitar; deixar fugir]
Perder alguém no sentido de falecer é, sem dúvidas, bem doloroso. Há todo o ritual da despedida: choro, sepultamento, missa, missa de sétimo dia e uma visita anual -para o finado que ainda é lembrado- no mês de novembro.
Pois bem, meu objetivo é analisar o outro sentido do termo "perder". Queria entender como encarar a perda de alguém, mas com um detalhe, esse alguém ainda não morreu! Fisicamente eu diria..
Sim! superar a perda de alguém que antes fazia parte mais do que nunca de você e hoje ronda por aí como mero desconhecido, ou melhor, pouco conhecido para não ser tão radical. Seria um morto-vivo em minha vida, que além de ter morrido em parte acaba matando parte de mim também, seria eu a viva-morta.
Cheguei a escrever sobre isso porque essa prática já se adaptou muito bem à minha pessoa. Tá quase no calendário, sabe? Mais certo que a seca em Brasília. E isso já virou meu maior medo, sempre reafirmado naqueles quetionários bestas de internet que insistem em perguntar: "Qual o seu maior medo?".
E é assim que se sucede: quem tem medo de fantasmas toda noite enxerga estes; quem tem medo de falar em público sempre gagueja no discurso final; quem tem medo de perder alguém...

E digo mais, esse medo só vai se ofuscar se pelo menos em algum ano essa prática desaparecer do meu calendário. Até agora nada!

Ai, ai... a morte é tão mais consolável...

Veja você: os mortos ganham despedidas, se encontram anualmente com os vivos e tem até flores na ocasião!

Já o morto-vivo e a viva-morta ...






Alguns créditos para a frase recentemente ouvida no filme Batismo de Sangue: "Prefiro morrer do que perder a vida". Ajudou na reflexão...